Ele e Ela – a última semana juntos

Na ALAAR, há pessoas que diariamente lidam com os nossos animais, que lhes dão comida, conforto, mimo e tudo isto enquanto tentam manter o abrigo limpo, lavado e arranjado.

Desse tempo passado a cuidar daqueles que outros descuidaram, aprende-se a conhecer cada animal.

Deixamos aqui algumas das “Crónicas do abrigo”, pelas mãos de Celeste Macedo:

Crónicas do Abrigo – “Ela e Ele – A última semana juntos”
de 20 a 30 de Setembro, Celeste Macedo

ele-e-ela

Crónica I

São 16.45, dei por concluídas pinturas e limpezas e vou aproveitar o tempo restante com a minha matilha.
Talvez seja bom para iniciar o treino de passear à trela com a Carol.
Procurei um peitoril adequado e uma trela e vamos a isto. Até que nem foi difícil vestir-lho, difícil foi convencê-la a mexer-se com ele colocado
Rabo entre as pernas, cabeça para baixo e aquele ar de “Não gostei! Agora tira.” Muitos biscoitos no bolso e muitos mimos para incentivar um passinho que fosse e o sucesso foi surgindo muuuuito lentamente.
Só alguns minutos pra primeiro dia e muito colo para que percebesse que trela não era castigo mas passeio e coisas boas 

Crónica II

Não são irmãos de sangue, mas são de coração. 

Carol e Xavi, são dois cachorros de 5 e 3 meses, respetivamente. São sobras de ninhadas resgatadas que foram vendo os irmãos de sangue a partir e eles foram sobrando. 

Mas Ela e Ele tornaran-se grandes amigos desde que estão sós. Onde estiver um aparecerá o outro. O que um quer o outro também. 

Ontem a Carol iniciou o treino de passear à trela. Não foi muito fácil. Ela recusava-se a dar um passo. Mal se apanhou de peitoril colocado fugiu a esconder-se, muito triste e infeliz. Ele, por solidariedade, juntou-se a Ela e lambia-a toda no focinho. Deitou-se ao lado dela e nada o fazia sair dali, nem a tentativa de suborno com uns biscoitos. “Se Ela não vai eu também não!” 

Uma Amizade verdadeira

Solidariedade – Os Animais a ensinarem-nos a ser melhores humanos

Crónica III

Ele encontrou uma raiz seca e achou que era ótima para dar que fazer aos dentes, só que Ela reparou que Ele tinha algo tão interessante que lhe absorvia todas as atenções. Não hesitou, fez-se à raiz e roubou-lha. 

Ele ficou com um ar desconsolado, mas não por muito tempo, não se dando por vencido num pulo estava de pé e a reclamar o seu achado. Ela não queria dar e então começou o jogo do “agora é meu. – Não é não, é meu..” E ora era um a ter a raiz ora já era o outro, um puxa o outro tira. Ela zanga-se e rosna e Ele cede, mas não se conforma e vai à luta. Ela faz-se de má, Ele refila e não se fica. 

E a luta lá vai virando brincadeira ou a brincadeira vai virando luta e saem os dois a correr, agora atrás de um trapo que entretanto “apareceu” no caminho. 

Crianças

Crónica IV

Estava anunciado que alguém viria para a ver. Ela não sabia disso e Ele nem imaginava que nessa tarde podia perder a sua grande cãopanheira, ainda bem que não lhes era dada a consciência de saberem disso, assim poderiam desfrutar da tarde de sol e das últimas brincadeiras juntos, despreocupadamente. 

Ela estava deitada em cima de um monte de areia, lingua de fora e respiração ofegante, repousava das últimas correrias. Ele ainda tinha energia para mais, procurou coisas novas para fazer/roer e achou, um saco de papelão vazio, restos do lixo das obras em curso. Achou perfeito. Com a boca agarrou-o por uma ponta e lá foi, de lado, a arrastar um papelão maior que ele. 

Rampa acima, dirigiu-se para Ela e pousou-o mesmo debaixo do nariz dela – “Olha o que achei!”. Ela não ligou nenhuma. Não satisfeito com a indiferença dela, puxou o papel literalmente para cima dela, até que Ela percebesse o jogo – “Vá, eu agarro nesta ponta, tu puxas por essa e isto rasga-se. É divertido!”. 

Eu estava feliz por Ela e triste por Ele. Sabia que se Ela cativasse quem aí vinha (o que não era difícil) Ela ganhava uma família e Ele perdia uma amiga  

Ela passou o teste com distinção: os novos donos, caíram de amores por Ela e Ela reagiu muito bem a tudo, até a deixar colocar o peitoril e passear à trela. Valeu o treino de 3 sessões bem sucedidas, continuou com o bom comportamento quando passei a trela para a mão do que seria o seu novo dono. 

Ela saiu do Abrigo pelo seu próprio pé, passeando rua acima à trela e pela mão da nova família que tinha conquistado. 

Ele ficou. Ainda não chegou a sua vez. Mas agora está só, não a tem a Ela. 

Há uma felicidade agridoce quando vemos partir aqueles que criaram raízes no nosso coração. Ossos do oficio 

Crónica IV

Com a partida da Carol o Xavi não ficou preso sozinho na box, como um cachorro crescido ficou solto junto com os 4 veteranos

Hoje dava dó vê-lo sozinho a subir o monte, como que a procurar por Ela, a deitar-se aborrecido em qualquer lado e a deixar-se ficar apático. Tentava desafiar os menos tolerantes, Cebolinha e Zeca, mas não insistia. Procurava a Lu e a Valentina, mas não lhe preenchendo estas o vazio que o perturbava, acabava por se afastar sozinho. 

Durante a manhã, volta e meia, chamava-o e acarinhava-o atirava-lhe um brinquedo ou uma pinha para longe, para lhe incentivar a corrida e a alegria.

E quando ontem já na reta final procedia à rotina habitual para ir embora, surge um telefonema a pedir que espere por umas pessoas que pretendem adotar um cachorro.

Pensando no Xavi aceitei esperar e ficar para receber as pessoas. No mais fundo de mim desejava que não fosse, de novo, alguém à procura de “um porta-chaves” em determinada cor, feitio e sexo… Porque eu iria, sem dúvida, desiludir-me com a situação e mal dizer pelo meu tempo perdido.

A família chegou. Adotante, mãe do adotante e namorada do adotante, ainda através dos portões, apresentei-lhes o único exemplar em idade de cachorro – “Ele”.

Falei daquilo que desconhecíamos e do que lhe conhecia bem, o temperamento, quis saber o que o esperava no novo lar, que condições. Uma vez satisfeita com as respostas, tratei de entreter o trio solto, Cebolinha, Zeca e Xavi, para que as pessoas fossem entrando para interagir com Ele.

O adotante acocorou-se no chão para ficar ao nível dele e Ele mostrou-lhe a barriga a pedir festas. Uma vez satisfeito com os mimos e parecendo entender a conversa paralela, Ele começa a mostrar as duas habilidades de brincalhão e bem disposto com todos. A mãe do adotante já dava por assumida a paixão cachorro/homem, a empatia entre ambos notava-se. O adotante conquista a minha aprovação quando disse que pouco lhe importava o porte final dele porque o que queria era aquilo, um cachorro para passear e atirar um pau ou uma bola e brincar. Sorri e garanti-lhe que para isso tinha um óptimo parceiro pois brincávamos a isso todos os dias.

Ultrapassada a burocracia da praxe, o Xavi, assim se manterá o nome, ganhou um novo colo, uma nova família só dele  .

Não assisti, pra grande pena minha, mas já no carro com aquela família e o Xavi, fiquei a saber que enquanto eu fechava as instalações e arrumava as minhas coisas, Ele percebendo que ia embora, já na rampa do portão, voltou atrás lambeu o focinho ao Cebolinha, foi atrás do Zeca para também lhe lamber o focinho e depois correu saltitante para o colo do novo Amigo. Daquilo que conheço do Xavi, é mesmo atitude dele este episódio final, despedir-se dos amigos.

Ela foi adotada e ganhou uma família em Vila Verde. Ele só esperou mais 6 dias e também ganhou uma família, nos Arcos. Provavelmente nunca mais se vão cruzar, mas eu nunca vou esquecer as imagens de ternura e amizade que me proporcionaram.

Ele e Ela deixaram Crónicas Felizes no Abrigo

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