Nós os bichos – Crónica de Marlene Ferraz

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Marlene Ferraz, psicóloga e escritora, amiga dos animais e da ALAAR, tem frequentemente ajudado a contar as histórias dos patudos que passam pelo abrigo, sendo também da sua autoria o livro “Eu ajudo os animais de rua!”, à venda AQUI, e cujo valor de vendas reverte na totalidade para a ALAAR.

Em 8 de Janeiro 2015, Marlene Ferraz escreveu a crónica que em seguida transcrevemos, no jornal Aurora do Lima:

NÓS, OS BICHOS

Marlene Ferraz

Seria ainda menina de dez palmos e já me espantava a frialdade de tantos homens maiores com a bicharia. Poderia contar da faca na garganta do porco, da cabeça cortada da galinha ou das borboletas alisadas com o peso dos livros. Digo ainda da gata desabrigada pelo grande útero, do cão preso a um fio metálico e do pássaro afinado metido na gaiola mais minúscula.

Mas o que incomodava mais o interior seria o desapego. Ou a ausência de contemplação. Como se os bichos fossem um invólucro vivo sem alma ou vontade, até uma anatomia decorativa ou simplesmente funcional (e a quem os filhos de deus e da ciência consentiam o verbo haver com a condição da obediência).

Oh. Às minhas esferas oculares, tanto os lagartos como os pardais seriam um descomplicado prolongamento das criaturas que somos. E habitadores verdadeiros do planeta disparatado que tem sido declamado como um trono dos animalejos homens. Pelo menos, o Papa Francisco já lhes consentiu o céu.

Somos tão provisórios como um elefante. Mais abreviados no tempo que uma baleia. E muito mais melindrosos se comparados a um lobo. Para nem falar das pedras, das árvores e dos livros. Pergunto, agora, mais dez palmos acima, como pode um ser vivo tão temporário criar desordens e até desafeições pelo sentido (ilusório) de propriedade?

Poderia ainda lembrar da urgência para travar o uso do pêlo como ornamento, também a caça aos golfinhos, o roubo do marfim aos rinocerontes, a violência nos circos, também nos laboratórios. Mas falo doutras que ainda resistem no século vinte e um: os bichos prendidos numa jaula ou comidos pela sarna ou resumidos pela fome ou abandonados na rua. Temos sabido de muitos braçados de animais em exagerado desconforto, apesar da anunciada sociedade dos tempos modernos. Usemos mais as mãos nesta renovação. Podemos começar a cada manhã. Até os bombeiros voluntários da cidade vão avançar com um serviço pet mobile no novo ano. E as vozes amargas que atiram: tanto amor aos bichos, antes se preocupassem com a gente. Maldito embaciamento da vista. Só aquele que nunca tenha ousado o nó (emocional) da convivência com criaturas doutras carnaduras pode desatender à urgência continuada de cuidar dos direitos dos animais. E que medrem as crianças num mundo cuidadoso e contemplador. Não esperaria luxos no procedimento, mas o principal. Como a cada um de nós. Comida. Água. Respeito. E afeição.

O planeta é da engrenagem natural que o vive: das pedras pardas, das subidas árvores, dos tantos bichos. Sem esta pluralidade, seria apenas um lugar redondo de betão armado e desperdício.

Nenhuma invenção de metal ou plástico se comparará aos movimentos delicados de voadura duma simples libelinha. Ou a lambidela mais ingénua dum aliado com a aparência muito achegada a um cão. Afiançar o bem-estar dos animais de casa (e da rua) não me parece uma decisão de alguns, antes um impulso (a ser polido) em todos – o movimento deslumbrante dum bicho a cuidar doutro. Assim os homens atentos (moldadores de todas as crianças). Venha um novo ano: que tanto há ainda para ser feito.

NOTA
No nosso distrito, têm-se levantado muitas associações com a missão maior de cuidar dos animais de rua e promover a responsabilidade social. Se tiverem tempo (e vontade), todos podem ajudar – basta dedicar um palmo de horas ou bens (comida, cobertores e outros). Nomes: Gatos de Ninguém, Vila Animal, ALAAR, Selva dos Animais Domésticos, Acod’Animais, Selva Genial, Mimos e Ternuras, Patas e Patas, Rafeiros e Companhia. Provavelmente, haverá ainda mais. Hoje é sempre um bom dia para (re)começar.

 

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